Este é um conto vietnamita que traduzi para o livro 7 histórias de mulheres, publicado em 2007 pelo IPOR (Instituto Português do Oriente), Macau, na ocasião do Dia Internacional de Mulheres. A história fala de um assunto que existe há muito tempo no Vietname mas ainda é muito discutido. Gosto da maneira que o escritor resolveu o problema, que mostrou a simpatia dele pelas mulheres e uma visão nova e humana.
Autor: Bui Huy Vong
Tradutora: Agulhinha Ferrogenta
Um menino, um menino, Phuong, minha irmã!!!
Ouvindo a sua mulher gritar na sala de maternidade do hospital, Tuong, que aguardava no corredor, ficou descansado e feliz. Finalmente, Phuong, a sua irmã, tivera um filho. Depois de muitas discussões sobre os preconceitos da sociedade e a reputação das mulheres grávidas sem marido, o sonho de Phuong tinha-se realizado.
Embora fossem irmãos dos mesmos pais - comessem à mesma mesa - por mais que se amassem os irmãos, que cuidassem uns dos outros, cada um teria que ter a sua própria casa e a sua família. Nada se podia comparar ao amor do marido, da mulher ou dos filhos.
Phuong era a mais velha, e segundo a tradição da nação Kinh, nada se comparava à primeira filha. Os pais ficaram muito contentes, a filha logo os ajudaria. Toda a aldeia reconhecia isso. Os rapazes só gostavam de brincar, não ajudavam em nada os pais.
E, mais uma vez, a tradição se cumpriu. Aos sete anos, Phuong já sabia preparar as refeições. Aos dez, já tratava dos porcos e trabalhava no campo.
Tuong tinha quase dez anos menos do que Phuong. A irmã ia às aulas de manhã e cuidava do irmão à tarde. Os pais podiam trabalhar no campo sem preocupação.
A situação da família melhorou, e, dois anos depois, a mãe ficou grávida.
Um dia, o pai de Phuong foi ao monte cortar madeira para fazer uma nova casa.
Tuong ainda se lembrava daquele pôr-do-sol destinado. No horizonte, a Oeste, o sol estava vermelho como uma brasa, tingindo as nuvens da cor do fogo. O pai foi levado para casa num edredão avermelhado pelo sangue. Uma árvore tinha-lhe caído em cima quando estava a cortá-la.
Durante o funeral, a mãe de Tuong, ainda grávida, chorou até desmaiar. Tuong, no entanto, sentiu mais estranheza do que dor. Não conseguiu compreender a perda do pai. Muitos anos depois, ainda se sentia muito tolinho ao lembrar aquele momento. Phuong abraçou o caixão chorando até os olhos ficarem muitos inchados.
Meses depois, a mãe deu à luz, em casa, com a ajudar das parteiras. Mas, menos de uma hora depois de o bebé nascer, teve uma hemorragia muito intensa. Apesar de ter sido conduzida ao hospital, perdeu tanto sangue que morreu no caminho, deixando os as três crianças órfãs. Phuong tornou-se o ganha-pão da família, a irmã e também a mãe dos dois irmãozintos. Naquele ano, tinha quase 14 anos.
Teve que deixar a escola. Todos os dias, quando o irmão chorava, levava-o às mulheres da aldeia, em fase de aleitamento, para lhe darem de mamar. Mais tarde, fazia-lhe sopinha. Com pena dos órfãos, ninguém lhes recusava o leite. Felizmente, o irmão parecia que compreendia a sua situação e raramente ficava doente.
Naquela altura, a comunidade da aldeia Muong vivia a experiência cooperativa. Aos irmãos de Phuong era fornecido arroz, mas, como era pouco, nunca chegava para os três órfãos. Os parentes queriam ajudá-los mas também eram pobres. E Phuong ainda não tinha idade para trabalhar. Na época das colheitas, deixava os irmãos nos vizinhos e ia para os ,onde o arroz ou o milho já tinham sido recolhidos, para apanhar os grãos ou os bagos caídos. Depois, deixava Tuong cuidar do irmão mais pequeno e ia ao rio apanhar peixes e caranguejos para vender. Assim, iam crescendo os três.
A juventude de Phuong foi passada a trabalhar arduamente para cuidar dos dois irmãos. Fazia todos os trabalhos para o ganha-pão da família. Desde trabalhar no campo até tratar de uma casa, fazia de tudo. Embora não fosse muito bonita, também não era feia. Era alta, tinha uma cara correcta e, em geral, era simpática. Surgiram alguns pretendentes que queriam casar com ela. Dizia-lhes que aceitaria se, vivendo com ela, a ajudassem a cuidar dos irmãos.
A noção de responsabilidade falava mais alto do que a preocupação de agradar. Nestas condições, os homens, como já não queriam viver em casa da mulher, afastavam-se dela em silêncio.
Durante muitas noites, Phuong não conseguia dormir, deixando as lágrimas molhar a almofada. Não queria perseguir a sua própria felicidade, o que obrigaria os irmãos a deixarem a escola. Várias vezes, os dois irmãos, Tuong e Luong, manifestaram vontade de deixar a escola para trabalhar de forma que a irmã se pudesse casar. Mas ela não aceitava e obrigava-os a estudar. Ficava em casa, trabalhava no campo e poupava para pagar as despesas deles.
O tempo passava muito depressa, quando Luong acabou a escola secundária, ela já tinha 30 anos. Com aquela idade já era muito difícil, naquela aldeia, uma mulher casar.
Tuong acabou os estudos, encontrou um bom emprego na província e casou-se. Com o seu apoio, o estudo de Luong ficou mais fácil.
Quando Tuong teve a primeira filha, a casa ainda ficou mais feliz. Mas Tuong não sabia que a alegria de uma pessoa podia ser a tristeza de uma outra. Muitas vezes, cruzava com o olhar triste de Phuong, especialmente quando o casal brincava com a filha. Vendo a irmã assim, Tuong também ficava infeliz e queria fazer algo para ajudá-la. Pensava, pensava muito, mas não encontrava nenhuma ideia. A mulher de Tuong, que também era de uma família pobre, tinha muita simpatia pela cunhada. Um dia, a propósito de um jantar de comemoração, Phuong dormiu em casa da família da mãe. Tuong e a mulher ficaram sozinhos em casa e puderam falar à vontade. A mulher perguntou com compaixão:
- Olha, ultimamente, tenho visto a minha cunhada a chorar sozinha, especialmente quando está sozinha com a nossa filha Huong…
Tuong entristeceu:
- Pois, toda a juventude dela foi dedicada a mim e ao Luong. Não conseguiu casar. Se tivesse um filho, seria óptimo para não se sentir sozinha – De repente Tuong bateu na testa – Nunca tinha pensado nisso! Vamos fazer um pedido de adopção para ela…
A mulher ficou silenciosa, depois suspirou e disse ao marido:
-Um filho adoptado não se pode comparar com um filho próprio. Ela ainda não é velha…
Durante toda a noite, o casal falou sobre o filho de Phuong…
Na noite seguinte, quando Huong já tinha ido dormir, o casal falou com Phuong. Phuong ficou como se estivesse sentada em cima de brasas choramingando: “Assim, toda a gente vai troçar de mim. É muito doloroso, muito desonroso…” O casal tentou apoiá-la: “Deixa lá, não podem troçar para sempre. Somos os teus irmãos, basta que te compreendamos. Toda a aldeia sabe que tens tido tantas dificuldades, que sacrificaste a tua felicidade por nós. Tu és serena e honesta, não como as raparigas imorais.” Falaram, falaram mas Phuong não mudou de ideias. Disse que o seu futuro eram os irmãos e os sobrinhos. Luong, que estava na faculdade ficou a saber a proposta sugerida por Tuong e pela mulher e enviou uma carta ameaçando que, se ela não aceitasse, deixaria a escola.
A novidade de Phuong estar grávida espalhou-se por toda a aldeia. Ficou magra, o cabelo duro, a barriga cada vez maior. De tão envergonhada, nem ousava sair. A sua cunhada não a deixava fazer nada e apoiava-a sempre: “A gravidez é muito importante para as mulheres, não te preocupes, fica tranquila”.
Deixando de criticá-la, as pessoas começavam a apoiá-la. As velhas vinham a casa aconselhá-la a cuidar de si. Uma mulher com mais de 30 anos a dar à luz pela primeira vez tinha de ter muito cuidado. Pouco a pouco, Phuong foi-se habituando e resignando. A vida nem sempre era confortável.
Tuong foi arrancado da corrente dos seus pensamentos quando a mulher o chamou:
- Olha, traz-me a fralda do cesto…
Um vento ligeiro fez Tuong acordar. E, voltando a casa para buscar mais algumas coisas para a grávida, Tuong sorriu ao ver o bambu velho em frente da casa a oscilar ao vento. Ao lado do tronco estava um bambu novo, crescendo.

2 comentários:
Ola.. Adorei o seu blog... Que me fez criar um.. Uma história mais interessante que a outra. Me chamo Carlos. Estou tentando aprender a mexer nesse blog. Espero que possa me tornar um seguidor seu.
olá! Eu chamo-me Gabrielle, e estou à procura de um traductor do vietnamita para o português para traduzir Itinerário de Infância, o primeiro romance de duong Thu Huong. Se estiveres interessada ou se conheceres alguém que o esteja, por favor contacta comigo, e eu explico o projecto! Obrigada. G.
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